Espaco Animal
Agressividade canina
21/05/2009 17:18:21

Em entrevista, Dra Rúbia Burnier discute aspectos importantes sobre o tema e desmistifica preconceitos.

MORDER FAZ PARTE DA NATUREZA DO CÃO?

Sim. Todo cão, de qualquer raça ou idade, morde. Assim como rosnar, latir, abanar o rabo e acasalar, morder faz parte do repertório comportamental dessa espécie. Um cão pode morder até por brincadeira, para expressar alegria e excitamento, por ciúme ou se for criado de maneira agressiva. Filhotes brincam como se estivessem brigando mas aprendem a controlar a intensidade das mordidas a partir das respostas emitidas pelos parceiros. Na verdade, brincar nada mais é que um treino de caça, pois reforça atitudes instintivas que são úteis à sobrevivência do animal. O contexto define a função do comportamento. Há mordidas por defesa de território, comida, brinquedos, companheiros de matilha, seu dono ou sua cria. As mordidas com intenção de ferir, que surgem como ataques deliberados, exprimem uma atitude típica de caça. Já as mordidas por reação significam uma resposta a algo que ameaça ou provoca incômodo e dor física, surge como reação a uma provocação direta. Sempre há uma justificativa sob o ponto de vista do animal, mas nem sempre a agressividade é aceitável e deve ser corrigida.

DE ACORDO COM SUA PESQUISA, QUAIS FORAM AS RAÇAS QUE MAIS CAUSARAM ACIDENTES EM SÃO PAULO?

A pesquisa que realizei na cidade de São Paulo, em 1999, apontou o seguinte perfil de cães agressores: 73% Sem Raça Definida; 77% Machos de Porte Médio; 66% Com Idade entre 1 e 5 anos; 60% eram Cães de Rua e 40% tinham Dono; 60% das agressões aconteceram na RUA. Dos 27% dos Cães com Raça – 40% Pastores; 20% Rottweiler; 15% Poodle; 5% Boxer; 5% Doberman; 5% Mastim Napolitano; 5% Dachshund; 3% Fox Paulistinha; 1% Cocker e 1% Husky Siberiano. Embora não tenha sido muito significativa a porcentagem de cães da raça Pit Bull, durante o ano da pesquisa aconteceram alguns casos graves de agressão envolvendo animais dessa raça.

Quanto ao perfil das vítimas – 70% era do sexo masculino; 50% com idade entre 20 e 50 anos; 30% idosos e 20% crianças entre 1 e 6 anos. 60% Não conheciam o cão agressor e 40% tinham algum contato com o animal. 40% das agressões foram nas Pernas das vítimas, 35% nas Mãos, 15% na Cabeça e 10% braços, troncos e órgãos genitais.

QUAIS AS CARACTERÍSTICAS DAS RAÇAS MAIS AGRESSIVAS?

Os cães das raças Rottweiler e Mastino Napolitano, assim como cães de outras raças usadas como guarda, foram selecionados para TRABALHO. Devem manifestar agressividade por dominância cuja função na matilha é a guarda do território e a defesa de seus companheiros de grupo. Para cumprir esta missão devem reconhecer e afastar um estranho ao seu território, demonstrando antipatia, força e coragem.

Os cães da raça Pit Bull foram selecionados para LUTA. Devem apresentar ataque rápido e inesperado, resposta rápida para estímulos que desencadeiam o ataque, alta resistência à dor e grande energia para atividades físicas. Cães dessa raça são excelentes atletas, mas são capazes de lutar até à morte quando nas situações de rinhas, não reconhecendo os sinais de submissão do seu oponente.

Animais potencialmente mais agressivos devem obedecer comandos e ser muito bem SOCIALIZADOS. Só assim irão conviver de forma segura e adequada com a sociedade. É grande a nossa responsabilidade enquanto criadores, veterinários, adestradores e proprietários.

DE QUEM É A CULPA PELA VIOLÊNCIA DE ALGUNS ANIMAIS?

Prefiro usar o termo responsabilidade. Quando selecionamos um animal para reprodução, devemos levar em conta a sua natureza e o temperamento dele. Os animais naturalmente mais agressivos não devem cruzar com pares também agressivos. Devemos equilibrar esta seleção genética, e buscar linhagens mais adaptáveis ao convívio social. Esta responsabilidade é do CRIADOR.

Quando se compra um filhote, independente da raça, é preciso buscar orientação na hora de escolher o mais adequado. Sociabilizar e educar sob regras firmes, sem com isso usar de métodos punitivos, prender ou acorrentar. Ao conduzir o cão na rua, mantê-lo sempre preso à guia e estar atento a todas as possíveis reações dele. Em casa, ter placa que avisa a presença de cão bravo, muros altos e portões seguros. Oferecer boas condições de higiene, alimento adequado á idade e tamanho, cuidar da saúde e proporcionar atividades físicas diárias. Evitar situações que geram estresse, como solidão e isolamento. Isso é responsabilidade do DONO.

Se a pessoa se aproxima de um cão desconhecido, se provoca ou tenta tocá-lo, se encara o animal diretamente, pode estimular uma reação por parte dele. Se aceitamos que cães sejam abandonados nas ruas, estamos estimulando a formação de matilhas, onde os animais passam a agir como caçadores. Nesse caso, a responsabilidade é da POPULAÇÃO.

Acho que todos somos responsáveis. Não dá para agir com negligência nem fingir que o problema não existe.

COMO O DONO DETECTA QUE SEU CÃO TEM CARÁTER VIOLENTO?

O dono pode perceber que seu cão tem tendências dominantes quando ele rosna ou demonstra intolerância ao ser tocado fisicamente, ou quando o cão sempre esconde objetos ou não permite aproximação à sua comida. Outras atitudes suspeitas são perseguir o dono e morder por traz; montar nas pernas do dono, como que para se masturbar; rosnar e pedir atenção o tempo todo; quando na puberdade, avançar em outros cães na rua e fazer excessiva marcação por urina, bem como urinar dentro da casa do dono. Demonstrar medo diante de ruídos altos, barulhos ou movimentação também não é um bom sinal. Cães medrosos mordem até mais e muitas vezes por motivo banal, sem sinais avisatórios que possam dar chance de defesa a vitima.

O QUE FAZER COM CÃES BRAVOS?

O melhor é sempre prevenir. É fundamental ensinar o cão, desde pequeno, a respeitar as pessoas e a se comportar bem em locais públicos. O animal deve aprender comandos e obedecer o dono sempre. Socializar também é fundamental. Filhotes bem socializados serão adultos mais equilibrados. Não se deve bater, prender ou acorrentar. Evitar treinamento de ataque, e investir em controle e obediência. Na rua, conduzir com guia e estar atento às reações do animal. Em casa é fundamental ter portões seguros e prender o animal quando alguma pessoa estranha ao convívio for visitar. Não deixar crianças sozinhas com cães e ensinar, tanto a criança quanto o cão, a se respeitarem. Evitar mais de um cão do mesmo sexo, pois as matilhas aumentam a disputa por liderança e estimulam atitudes de caça. Exercitar o animal diariamente e brincar com ele. Se o proprietário seguir essas regras, ja teremos dado um importante passo na prevenção de acidentes.

QUAL SUA OPINIÃO SOBRE A PROIBIÇÃO DAS RAÇAS?

Não acredito que esse seja o melhor caminho para se prevenir os ataques. Projetos para extinção de raças podem acabar empurrando para a clandestinidade esses cães, que cairão nas mãos de traficantes e de maus criadores. É preciso cobrar responsabilidade civil e punir os maus proprietários, com multas e até prisão. É preciso estabelecer mecanismos eficientes de controle do comércio de cães. Acima de tudo, é preciso investir em campanhas de conscientização da POSSE RESPONSÁVEL DE ANIMAIS, em todo o Brasil e para todas as raças de cães, não só os potencialmente perigosos.

NOTA: Essa entrevista foi originalmente publicada na revista "Atualidades e Técnicas Veterinárias", Dezembro de 2002.

 




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