![]() |
||
|
O
Vínculo afetivo Homem-Animal
|
||
|
Data de pelo menos alguns milhares de anos a relação do homem com o cão e desde então muitas mudanças foram acontecendo à partir dessa convivência. O processo de domesticação exigiu dos animais uma grande adaptabilidade e impôs novas formas de relações sociais, redirecionou suas buscas pelo alimento e suas necessidades de proteção. O cão é o único animal doméstico que alterou radicalmente todo o seu modo de vida e toda a sua esfera de interesses. Pela seleção artificial, controlada pelo homem, vários cruzamentos entre os animais foram se direcionando até definirem-se nesta grande variabilidade de raças encontradas hoje. O cão doméstico é portador, em vários graus, dos genes de todos os canídeos selvagens, o que proporcionou ao homem condições de criar centenas de raças diferentes mediante acasalamentos controlados. Esta é a teoria que SERPELL denominou de seleção artificial de caracteres específicos, onde as características como tamanho reduzido do crânio e dentes, necessidade de cuidados parentais, mansidão e dependência favoreceram a interação social, a reprodução, o aprendizado e a socialização com o ser humano. Todos os canídeos, com exceção da raposa, são altamente sociáveis. Se reúnem em matilhas para caçar ou buscam companhia e proteção; estabelecem uma hierarquia de dominância centrada em um líder e parecem ter lealdade à matilha e seus membros. Desenvolvem comportamentos altruistas como proteção aos filhotes e cuidados parentais. Através da urina misturada às secreções de suas glândulas obtêm, por esses sinais olfativos, uma série de informações sobre outros de sua espécie, como dados da identidade (sexo, idade, atividade sexual recente ou cio) e até dicas do estado emocional (medo, alegria, fúria). Nos conflitos ou encontros agonísticos, os animais dominantes estabelecem posturas físicas (eriçar de pêlos, contracção do esfinter anal, franzir da testa, orelhas eretas) e vocalizações (ganhir, latir, rosnar, mostrar os dentes) de forma a ritualizar o ataque, evitando o confronto fatal. O animal mais dominante não se intimida e o dominado, reconhecendo a força do seu oponente, tende a se afastar do território defendido, abaixando as orelhas e o rabo, choramimgando ou até deitando-se de barriga para cima. O importante é o reconhecimento dos sinais de submissão para se evitar ou interromper um ataque. Porque , na natureza, as espécies se preocupam em poupar energia e otimizar as condições para obterem o seu maior sucesso reprodutivo que é a sua garantia de sobrevivência. Dessa forma se dá a transmissão de todos os genes desejáveis para as gerações futuras. Portanto, os cães são sociais, irão reconhecer ou estabelecer uma hierarquia dentro do seu grupo ou matilha e irão interagir com o meio ambiente físico. Como avaliar então a vida dos nossos cães, uma vez que suas matilhas se estabelecem entre eles e as famílias que os criam e seus territórios são as casas onde moram? Como desenvolvem a comunicação com os indivíduos de sua espécie e com o ser humano? O que esperar de sua reprodução que é totalmente controlada e muitas vezes mal direcionada pelo homem? Observo, muitas vezes, na minha prática como veterinária, animais extremamente agressivos ou muito dominantes sobre seus proprietários, animais despreparados para ficarem só na ausência do seu dono, animais que têm dificuldades para se reproduzirem ou até para cuidarem de suas crias, animais medrosos e ansiosos, animais que se auto-mutilam, enfim, um grande número de problemas comportamentais são diagnosticados. A domesticação trouxe, sem dúvida, várias vantagens para os animais. Apesar de muitos serem mau tratados ou até abandonados pelos seus donos, de maneira geral nós os protegemos e damos afeto, cuidamos de sua saúde e higiene, garantimos sua alimentação, definimos várias raças através de cruzamentos, apesar de às vezes optarmos por selecionar temperamentos indesejáveis e perigosos. Muitas vezes não respeitamos suas necessidades de socialização, de convivência com seus pares e suas aptidões especificas. Erradamente acreditamos que eles são quase humanos...Talvez por precisarmos tanto de suas companhias, de sua força e proteção, os cães hoje ocupam posição que muitas vezes transcende seu papel original. A necessidade de se ter um amigo, ás vezes ele é até como um filho, ou um brinquedo para o filho, uma companhia, alguém para cuidarmos e darmos atenção, até uma arma de ataque...enfim, é muito mais do que um simples animal de estimação para muita gente. Ao longo de sua história evolutiva, dentro dessa relação tão íntima e dependente do ser humano, irão eles mudar seus comportamentos ao assimilar de forma tão intensa as influências da nossa sociedade? Quais aspectos de sua personalidade estariam sofrendo boas ou más influências? Qual é a nossa responsabilidade sobre o bem estar animal? Qual a qualidade desse vínculo afetivo? Bons temas para pensar ... Referências bibliográficas: Serpell, Lorenz, Coren, Manning. Volta ao Índice dos Artigos
|
||
|
início | comportamento animal | terapia comportamental | artigos | no rádio | a profissional 0XX11 9996-1222 | rubia@vetmovel.com.br
|
||